Gestão da Inovação no Setor de Energia

Gestão da Inovação no Setor de Energia

Com mais de uma década de experiência na Eletrobras, Marcus Araújo personifica a interseção de visão estratégica e execução tática. É formado em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e possui MBA e mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco. Motivado por um propósito audacioso de forjar um futuro onde a energia é tanto livre quanto abundante, ele tem habilmente orquestrado novos modelos de negócios que não apenas alavancam eficiência, mas também catalisam transformações setoriais.

CARACTERÍSTICAS ÚNICAS DO SETOR DE ENERGIA NO QUE DIZ RESPEITO À INOVAÇÃO

O setor de energia é um universo complexo e dinâmico, especialmente quando se trata de inovação. Algumas características especiais desse mercado são:

  1. Obrigação Legal de Investimento em P&D&I
    Uma das primeiras e mais notáveis características do setor de energia, especialmente o elétrico e o de petróleo e gás no Brasil, é a obrigação legal de investir em Pesquisa e Desenvolvimento para Inovação – P&D&I. Essa exigência legal, estabelecida por uma lei dos anos 2000, é um diferencial significativo comparado a outros setores da indústria brasileira. Ela estipula que as empresas geradoras, transmissoras e distribuidoras de energia devem alocar uma parte de seus recursos para atividades de inovação. Esse modelo de gestão, supervisionado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), passou por várias modificações ao longo dos anos, incorporando novas tendências e práticas.
    Tal mecanismo de financiamento para inovação tem enfrentado desafios e evoluções. Embora represente uma reserva orçamentária significativa para inovação, levanta questões sobre a eficácia e o impacto real desses investimentos nas empresas e na sociedade. A natureza obrigatória desses investimentos pode, paradoxalmente, limitar a criatividade e a inovação genuína, levando algumas empresas a cumprir a exigência legal sem necessariamente buscar inovações disruptivas ou efetivamente úteis.
    A abundância de recursos pode levar à complacência, onde as empresas estruturam suas áreas de P&D&I mais como uma resposta à exigência legal do que como uma busca genuína por inovação disruptiva. Isso levanta questões sobre o retorno real desses investimentos, tanto em termos de benefícios para as empresas quanto para o setor como um todo.
  2. Alto Potencial para Colaboração Interna
    O setor de energia é caracterizado por um alto potencial de colaboração interna. Diferente de outros setores, onde startups e empresas externas frequentemente desestabilizam o mercado com inovações disruptivas, no setor de energia, a intensiva demanda por ativos e infraestrutura de grande porte, como linhas de transmissão, subestações e unidades de geração de energia, cria um ambiente propício para colaborações internas e cross empresas. A natureza capital-intensiva do setor gera uma dependência tecnológica que limita a entrada de entidades externas e favorece a colaboração entre os agentes já estabelecidos no setor.Ao contrário de indústrias altamente competitivas onde a partilha de informações é rara e mais arriscada ao negócio, o setor de energia favorece a colaboração entre diferentes empresas para o desenvolvimento de projetos inovadores. Isso tem o potencial de não apenas fomentar a inovação dentro do setor, mas também de criar um ambiente onde a partilha de conhecimentos e recursos pode levar a avanços significativos junto ao ecossistema.
  3. Desafio da Conexão com o Cliente Final
    Um dos desafios mais significativos no setor de energia é estabelecer uma conexão clara com o cliente final. Enquanto as empresas de comercialização no mercado livre têm interações diretas com os clientes, para as empresas geradoras e transmissoras, o cliente é uma entidade difusa e complexa, variando de consumidores individuais a grandes indústrias. Esta diversidade de clientes com diferentes necessidades e expectativas cria um desafio único: como as inovações podem atender de maneira eficaz a um grupo tão heterogêneo? O entendimento limitado do cliente final levanta questões sobre a relevância e o impacto real das inovações para os diversos consumidores de energia.
    Colocar o cliente no centro das discussões de inovação é essencial para superar esse desafio. Esta abordagem incentiva as empresas do setor a desenvolver inovações que não apenas atendam às exigências legais, mas que também sejam verdadeiramente benéficas e relevantes para os consumidores finais. Considerar as necessidades e expectativas dos clientes pode levar a modelos de negócios inovadores e parcerias estratégicas, resultando em inovações mais significativas e impactantes. Tal perspectiva centrada no cliente promove uma mudança na forma como as empresas de energia abordam a inovação, garantindo que ela traga benefícios tangíveis não apenas para o setor, mas para a sociedade como um todo.

 

OS PROCESSOS E A ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DA INOVAÇÃO EM EMPRESAS DE ENERGIA

Os processos de inovação no setor de energia estão em constante evolução e a inovação no setor de energia passa por uma série de transformações em termos de estrutura organizacional.

Tradicionalmente, a gestão de inovação no setor era dominada por equipes focadas em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), influenciadas fortemente pela regulamentação. Essas equipes eram dedicadas a cumprir as normativas de inovação, muitas vezes resultando em uma abordagem mais burocratizada e menos focada na inovação real. Com o tempo, contudo, houve uma evolução nessa estrutura. Novos modelos organizacionais surgiram, introduzindo equipes distintas para inovação corporativa, inovação aberta e inovação empresarial. Essas equipes, embora mais ágeis e inovadoras, enfrentaram desafios de comunicação e colaboração devido a diferentes lideranças e agendas.

Recentemente, observa-se uma tendência crescente de descentralização na gestão da inovação. Empresas como a Eletrobras, por exemplo, têm adotado estruturas verticais inteiramente dedicadas à inovação, à tecnologia digital e à TI, refletindo uma maior valorização da inovação no contexto organizacional.

A ordem proposital desses departamentos – Inovação, Digital, P&D e TI – destaca a prioridade dada à inovação e à digitalização. Além disso, há um movimento para que a execução de projetos de inovação ocorra mais próxima dos ecossistemas locais, aproveitando a descentralização proporcionada pelo cenário pandêmico. Isso permite uma maior integração com startups, centros de pesquisa e outros agentes locais, maximizando o valor e a relevância dos projetos de inovação. As subsidiárias da Eletrobras, por exemplo, estão se tornando polos de execução de projetos, atuando como interlocutores com os ecossistemas locais e demonstrando o valor significativo que estes podem trazer para os programas de inovação.

A transição de um modelo predominantemente burocrático e regulamentado para uma abordagem mais descentralizada e integrada ao ecossistema local reflete uma mudança significativa na forma como a inovação é percebida e gerida no setor. Essa evolução abre caminho para uma inovação mais ágil, relevante e colaborativa, alinhada com as necessidades e desafios do setor de energia contemporâneo.

 

PRINCIPAIS OPORTUNIDADES DE INOVAÇÃO E DE EVOLUÇÃO DIGITAL NO MERCADO DE ENERGIA

No setor de energia, observa-se uma mudança significativa no ritmo e na abordagem da inovação, alinhada com as ondas de evolução tecnológica conhecidas como Horizontes 1 (H1), Horizonte 2 (H2) e Horizonte 3 (H3). Estas ondas representam diferentes níveis de maturidade e potencial disruptivo das inovações. O setor está se afastando de um modelo tradicional de planejamento de longo prazo, para um foco em ciclos mais curtos e dinâmicos de inovação. Essa abordagem mais ágil favorece a experimentação rápida e a adoção de tecnologias com um nível de maturidade mais elevado, permitindo uma resposta mais rápida às necessidades do mercado e dos consumidores.

Nesse contexto, Marcus destaca:

  • A Metáfora da Cebola – Camadas de Inovação: A metáfora da cebola pode ser usada para descrever esta abordagem de inovação no setor de energia, onde cada camada representa um horizonte de inovação diferente. O H1 (Horizonte 1) corresponde à camada mais externa, envolvendo inovações incrementais e melhorias em processos e produtos existentes. O H2 (Horizonte 2) representa inovações mais significativas que podem transformar processos existentes ou criar novos mercados. Finalmente, o H3 (Horizonte 3) é a camada mais interna, onde inovações disruptivas e radicais, que têm o potencial de redefinir o setor, são exploradas.
  • Inovação Incremental e Colaborações Estratégicas: O setor está focando em inovações incrementais que aceleram a entrega de valor, muitas vezes através de colaborações com startups e empresas de tecnologia. Essas parcerias permitem o teste rápido de soluções em ambientes controlados, como pilotos ou provas de conceito, proporcionando oportunidades valiosas de aprendizado e adaptação. Tais colaborações são benéficas para ambas as partes, permitindo que empresas tradicionais do setor de energia aprendam com a agilidade e a inovação trazidas por parceiros mais ágeis e focados em tecnologia.
  • Oportunidades Além dos Negócios: A conexão com startups e empresas de tecnologia oferece oportunidades que vão além dos negócios, incluindo insights valiosos sobre práticas e soluções que podem ser aplicadas em diferentes aspectos do setor de energia. A interação com diferentes atores do ecossistema de inovação enriquece o setor, permitindo uma melhor compreensão de tecnologias emergentes e tendências, e fomentando um ambiente de inovação mais robusto e resiliente.

 

NOVIDADES REGULATÓRIAS DA ANEEL A PARTIR DE 2024

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) do Brasil está implementando mudanças significativas em seu programa de pesquisa e desenvolvimento (P&D), com vigência a partir de janeiro de 2024. Essas mudanças visam transformar a abordagem da inovação no setor de energia, movendo-se além da execução de projetos de P&D meramente por conformidade, para enfocar a geração de valor real e resultados práticos. Esta evolução é uma resposta às práticas de inovação que, até agora, não eram uniformemente adotadas em todo o setor. Alguns impactos são:

  • Oportunidade para Startups e Tech Sellers: Uma das principais inovações da nova regulamentação da ANEEL é a inclusão de novos atuadores no processo de inovação, como startups e empresas de base tecnológica, além dos tradicionais institutos de pesquisa e universidades. Isso reconhece que a colaboração com esses novos parceiros pode acelerar o desenvolvimento e a entrega de soluções tecnológicas inovadoras no setor de energia.
  • Adoção de Indicadores de Desempenho: Outra mudança importante é a adoção de indicadores de desempenho para medir o impacto das inovações. Esses indicadores vão além de métricas financeiras, abrangendo aspectos como a regionalização da aplicação dos recursos, o tempo de lançamento ao mercado (time-to-market), a efetividade das soluções e a geração de valor em termos mais amplos. Isso representa um movimento para quantificar e qualificar o retorno real das inovações, não apenas em termos financeiros, mas também em benefícios sociais e ambientais.
  • Oportunidades de Inovação Digital e Processual: A nova estrutura regulatória da ANEEL também está alinhada com as oportunidades de inovação digital e processual dentro do setor. Isso inclui a digitalização de processos administrativos e operacionais, a introdução de tecnologias emergentes como digital twins, blockchain e inteligência artificial, e a exploração de novos modelos de negócios, incluindo serviços baseados em energia renovável e soluções de armazenamento de energia como o hidrogênio verde.
  • Explorando Novos Modelos de Negócios: A regulamentação atualizada abre espaço para a exploração de novos modelos de negócios no setor de energia, que vão além das tradicionais estruturas de geração, transmissão e distribuição. Isso inclui a criação de serviços e soluções que atendam a nichos de mercado ainda não explorados, inspirando-se em práticas de mercados internacionais mais avançados e adaptando-as à realidade brasileira.

As novidades regulatórias da ANEEL a partir de 2024 representam uma mudança fundamental na maneira como a inovação é abordada no setor de energia no Brasil. A inclusão de novos atores no processo de inovação, a adoção de indicadores de desempenho abrangentes e a abertura para novos modelos de negócios indicam uma era de maior dinamismo e criatividade, focada em gerar soluções tecnológicas mais eficazes e sustentáveis para os desafios energéticos do país.

 

DICAS PARA TECH BUYERS E TECH SELLERS NO SETOR DE ENERGIA

Tech Buyers no setor de energia, como a Eletrobras, estão se adaptando a um cenário de inovação mais dinâmico e integrado. Uma dica chave é a exploração da plataforma “Innovation Grid” lançada pela Eletrobras. Esta plataforma é um ponto de conexão vital com o ecossistema de inovação, abrangendo desde startups até empresas de tecnologia estabelecidas. Os Tech Sellers devem se atentar aos desafios lançados na plataforma e utilizar os canais disponíveis para estabelecer conexões e colaborações efetivas.

Além disso, Tech Sellers, incluindo startups e empresas de tecnologia, devem se manter atualizados com os programas de desenvolvimento tecnológico do setor. Isso inclui acompanhar as iniciativas da ANEEL e outras empresas do setor de energia. Além disso, é crucial entender as tendências atuais do setor, como a descarbonização, descentralização e digitalização. Esses fatores são fundamentais para identificar oportunidades de inovação e desenvolver soluções que atendam às necessidades emergentes do mercado.

É importante não apenas adaptar soluções internacionais ao contexto brasileiro, mas também criar soluções inovadoras que sejam genuinamente brasileiras. Estas podem atender às especificidades do setor de energia do Brasil e, potencialmente, serem exportadas para o mercado global. Existe um espaço significativo para inovação que reflete as características únicas do mercado energético brasileiro, como a sua matriz energética limpa e as oportunidades em energias renováveis.

Para mais informações e troca de ideias sobre inovação no setor de energia, Marcus Araújo está disponível para conexões. Ele pode ser encontrado no LinkedIn e no Instagram pessoal, onde também aborda temas relacionados à inovação e energia. Ele convida os interessados a entrar em contato para discutir sobre o “Innovation Grid”, o programa “Power Up” e outras iniciativas ativas.

 

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