A Jornada é o Destino: Adaptabilidade, Carreira e a Coragem de se Reinventar em um Mundo em Constante Transformação
A 16ª edição do <Re>conectar com Tecnologia aconteceu em 13 de agosto, na FIAP Paulista, com o tema “Humans in the Loop: o diferencial humano na era da IA”. Entre as reflexões compartilhadas, Renata Freesz, Strategy Advisor da Match<IT>, conectou sua trajetória pessoal e profissional às transformações que marcaram o mundo, da popularização dos computadores ao avanço da Inteligência Artificial. Com experiência em estratégia corporativa, inovação, ESG e novos negócios, é formada em Economia e Direito pelo Mackenzie, pós-graduada em Administração pela PUC-SP e possui educação executiva em Inovação por Stanford. Em uma narrativa íntima, mostrou como adaptabilidade, repertório e coragem para fazer escolhas difíceis são competências essenciais para navegar em contextos de incerteza e alinhar propósito pessoal às demandas de um mercado em constante evolução.
A Adaptabilidade como Competência Central
Desde a infância, marcada por desafios pessoais e por um Brasil em constante mudança econômica e política, a adaptabilidade se revelou uma característica fundamental. Renata destaca que os brasileiros, por viverem em um país de grandes dimensões e realidades diversas, desenvolveram uma resiliência natural. Essa vivência, que incluiu múltiplos planos econômicos e a instabilidade monetária, forjou uma capacidade de se ajustar a novos cenários que hoje é altamente valorizada no mundo corporativo. A lição para líderes é que essa habilidade, já presente na cultura, deve ser potencializada nas organizações como um diferencial estratégico para lidar com as transformações contínuas, incluindo as tecnológicas.
Carreira: Uma Construção Não Linear e Guiada pela Experiência
A trajetória profissional de Renata foi marcada pela exploração e pela ausência de um plano rígido. Sem uma vocação definida no início, ela transitou por diferentes áreas, do serviço público ao setor financeiro e à indústria de celulose, aprendendo com cada experiência. Essa jornada não linear, guiada pela curiosidade e pela busca constante por conhecimento, como um MBA e a imersão em diferentes culturas corporativas, reforça a ideia de que o repertório se constrói na prática. Para as mulheres, ela aponta que a carreira frequentemente envolve um balanço mais complexo de escolhas e renúncias, como a decisão de ter filhos enquanto se busca progressão profissional. A experiência de ter sido apoiada por uma gestora que valorizou seu potencial acima da possibilidade de uma licença-maternidade ilustra a importância de uma liderança empática e focada em resultados a longo prazo.
A Importância de “Rasgar os Livros”: Adaptando a Metodologia à Cultura
Uma das lições mais importantes aprendidas ao longo da carreira foi a necessidade de adaptar o conhecimento técnico à cultura de cada organização. Ao mudar de uma empresa para outra dentro do mesmo setor (papel e celulose), Renata percebeu que as lógicas e linguagens eram completamente diferentes. A experiência prática demonstrou que aplicar metodologias de forma padronizada (“copia e cola”), sem sensibilidade ao contexto, gera distanciamento e resistência. Para implementar projetos de inovação dentro de uma nova cultura, foi preciso:
- Abandonar jargões que a empresa não entende ou não se identifica: E substituir por uma comunicação mais acessível e alinhada aos costumes da empresa.
- Focar na execução, não na metodologia: O fundamento metodológico era aplicado com robustez, mas sem ser o método o principal foco e sim a compreensão e adesão das equipes para uma boa execução.
Essa capacidade de “rasgar os livros” e aplicar o conhecimento de forma contextualizada é o que, segundo ela, diferencia o profissional maduro, uma habilidade que a IA ainda não consegue replicar e que se torna ainda mais valiosa.
A Inteligência Artificial como Ferramenta de Potencialização Humana
A experiência na criação de uma área de Inovação e, posteriormente, de um AI Office, trouxe uma visão pragmática sobre o papel da Inteligência Artificial nas empresas. Ao contrário do temor de substituição, a IA se revelou uma poderosa ferramenta de apoio e visibilidade. Em um caso prático, operadores de chão de fábrica utilizaram a tecnologia para aprimorar e articular suas ideias em um programa de inovação. A IA não substituiu o colaborador, mas potencializou sua capacidade, dando-lhe a oportunidade de ver seu projeto implementado. Isso demonstra que a tecnologia pode ser uma aliada para democratizar a inovação e dar voz a todos os níveis da organização.
O Ciclo das Organizações e a Necessidade de Autocuidado
Mesmo com o sucesso da área de inovação, ela foi descontinuada devido a uma mudança na estratégia da empresa, que passou a não prever grandes ciclos de crescimento nos anos seguintes. Esse episódio evidencia que as organizações possuem seus próprios ciclos e que, muitas vezes, as decisões de reestruturação estão fora do controle individual. Concomitantemente a esse período de estresse profissional, Renata desenvolveu um problema de saúde que a forçou a fazer uma pausa e se reavaliar. A experiência serviu como um poderoso lembrete:
- Não temos controle de tudo: A tentativa constante de controlar todos os aspectos da vida profissional e pessoal é ilusória e desgastante.
- O corpo dá sinais: O estresse e a falta de alinhamento com o propósito podem se manifestar fisicamente, exigindo atenção e cuidado.
- Pausas são necessárias: Momentos de interrupção na carreira, planejados ou não, são oportunidades para se reconectar com seu propósito e redesenhar a própria vida.
O Futuro do Trabalho: Maturidade, Coragem e Colaboração
A IA está entrando em uma nova camada, a intelectual, afetando profissões que antes pareciam imunes à automação. Isso gera insegurança, especialmente para profissionais mais maduros, que são mais caros para o mercado. Contudo, Renata argumenta que este é o momento de encarar os desafios com coragem, em vez de se esconder atrás do medo. A estratégia para prosperar neste novo cenário envolve:
- Formar times diversos: Equipes com pessoas de diferentes perfis e pontos de vista são mais ricas e inovadoras, embora exijam mais trabalho para gerenciar.
- Estar aberto à troca: Conversar e compartilhar experiências é fundamental para navegar em períodos de transição.
- Enfrentar o palco: A chave não é temer a IA ou as mudanças, mas subir no palco, viver as experiências e entender que a felicidade e o sucesso dependem das próprias ações, não de uma tecnologia.
Reinventar-se também faz parte da jornada
A jornada compartilhada por Renata Freesz mostra que carreira, vida pessoal e transformação tecnológica estão profundamente conectadas. Para líderes e profissionais, a verdadeira resiliência não está em prever o futuro, mas em cultivar adaptabilidade, autoconhecimento e coragem. A IA é uma ferramenta poderosa, cujo potencial depende da maturidade para aplicá-la ao contexto, do cuidado consigo e da disposição para se reinventar. Em um cenário de mudanças constantes, a capacidade de se reorganizar e fazer escolhas alinhadas ao próprio propósito será decisiva para construir os próximos capítulos da jornada.