IA no Campo: A Transformação Digital do Agronegócio Conectado

IA no Campo: A Transformação Digital do Agronegócio Conectado

No dia 27 de novembro, no evento <Re>conectar, realizado no Hub Cerrado em Goiânia, Eder Fantini Junqueira, Head de TI da Jalles Machado, compartilhou como a inteligência artificial está deixando de ser promessa distante para se tornar aliada do agronegócio conectado. 

A Jalles é uma empresa goiana, com três unidades produtivas em Goiás e Minas Gerais, mais de 100 mil hectares cultivados, capacidade de moagem de 9 milhões de toneladas de cana por safra, exportação de açúcar orgânico para mais de 20 países e cerca de 6 mil empregos diretos. A companhia é listada no Novo Mercado da B3, combinando tradição no campo com uma agenda consistente de transformação digital.  

Um ponto simbólico dessa transformação é a conectividade. Todo o campo da Jalles já é coberto com rede 4G, o que permite que máquinas, sensores e sistemas operem de forma integrada, gerando um volume crescente de dados que servem de base para decisões mais precisas. 

Ansiedade por IA, mas com pé no chão

Eder começou trazendo um ponto com o qual muitas empresas se identificam. Nos últimos anos, a pressão por IA explodiu. Notícias sobre a corrida das big techs, ferramentas generativas em alta e expectativas de produtividade criaram uma sensação de urgência. Segundo dados apresentados por ele (fonte: Gartner), 98 por cento dos líderes de TI relatam que seus funcionários estão ansiosos para experimentar novas ferramentas de IA, enquanto 72 por cento dizem que as equipes têm dificuldade para integrar essas tecnologias no dia a dia. 

Diante desse cenário, Eder foi direto. Não existe fórmula mágica nem receita pronta, existe estratégia. A Jalles passou por um período intenso de fusões e aquisições e integração de plantas, o que exigiu foco total da TI na consolidação dos sistemas. Somente depois desse movimento foi possível construir, com calma, uma agenda consistente de IA, alinhada à realidade e às prioridades da empresa. 

Cinco temas estratégicos para a TI corporativa

Para organizar essa jornada, a Jalles definiu cinco temas estratégicos de TI corporativa, um deles dedicado diretamente à inteligência artificial e dados: 

  • Transformação digital sustentável 
  • Inteligência artificial e dados 
  • Cibersegurança 
  • Arquitetura híbrida e modernização 
  • TI como parceira de negócio  

IA não aparece como moda pontual. Ela está lado a lado com segurança, modernização e parceria com o negócio, o que reflete uma visão madura de tecnologia como meio para gerar valor. 

IA e dados como ativos estratégicos: casos práticos

Hoje, a Jalles se considera na fase de exploração em IA. Não se trata mais de curiosidade, e sim de pilotos concretos que começam a gerar aprendizado e resultado. 

Um dos destaques é o programa de adoção de Copilot, em parceria com a Microsoft. A empresa viabilizou licenças para 50 usuários, selecionados como champions de diferentes áreas. Eles passaram por cinco semanas de treinamento estruturado, com sessões semanais, e saíram preparados para testar, ensinar e disseminar boas práticas dentro da organização.

Ao mesmo tempo, a companhia iniciou o uso de Copilot Chat para mais de 1.800 colaboradores, com treinamentos em grande escala. A ideia é mostrar como a ferramenta pode apoiar na produção de conteúdo, análise de informações e automação de tarefas do dia a dia, sempre em ambiente corporativo seguro.

No campo de casos práticos, alguns exemplos se destacam: 

  • Um chatbot interno para o RH, batizado de Jasmin, que atende funcionários no aplicativo da empresa e responde dúvidas sobre processos. 
  • Um recurso de análise automatizada de currículos, que ajuda o time de recrutamento a priorizar candidatos com maior aderência às vagas. 
  • Agrônomos utilizando IA para apoiar decisões agronômicas, combinando dados de campo com conhecimento técnico para buscar melhor produtividade e eficiência. 
  • Uso jurídico da ferramenta para comparação de contratos e documentos, economizando tempo em tarefas repetitivas. 

Além disso, a área de TI aplica IA em monitoramento de segurança cibernética e detecção de incidentes, além de um caso bastante sensível: o monitoramento de comportamento de motoristas no campo. Câmeras inteligentes instaladas em caminhões identificam sinais de uso de celular, fadiga, distração ou comportamentos de risco. As informações são usadas para aumentar a segurança, proteger vidas e reduzir acidentes nas operações. 

Governança, segurança e políticas de IA

Para Eder, adotar IA sem governança é um risco que a empresa não pode correr. Por isso, a Jalles está estruturando uma política corporativa de IA, alinhada às regras de segurança da informação já existentes e às exigências de governança de uma companhia de capital aberto. 

A orientação é clara. Inovação e experimentação são bem-vindas, mas precisam respeitar limites de proteção de dados, confidencialidade e conformidade regulatória. O objetivo é incentivar o uso de ferramentas homologadas, reduzir o uso de soluções externas sem controle e garantir que dados sensíveis sejam tratados de forma adequada. 

Além da agenda interna, a empresa acompanha de perto o movimento dos seus fornecedores. Grandes plataformas corporativas, como o ERP utilizado pela Jalles, já vêm embarcando recursos nativos de IA, o que reforça a importância de entender, avaliar e aproveitar essas capacidades com inteligência. 

O futuro do agro é conectado, e o campo emana dados

Na parte final da palestra, Eder resgatou uma frase que vem repetindo com frequência dentro da empresa. O futuro é dado, e o campo emana dados. Colheitadeiras, caminhões, sensores, estações meteorológicas e sistemas de gestão geram informação o tempo todo. A diferença está em quem consegue capturar, organizar e transformar esses dados em decisões melhores. 

Para ele, o grande desafio do agronegócio conectado não é apenas colocar tecnologia no campo, mas garantir que esses dados não se percam e alimentem decisões estratégicas, operacionais e financeiras. IA entra justamente como a camada que dá sentido a esse volume de informação, transformando o que antes era invisível em vantagem competitiva. 

A mensagem final é simples e poderosa. IA no campo não é um fim em si. É uma forma de proteger pessoas, ganhar eficiência, aumentar produtividade e manter o agronegócio brasileiro competitivo em um mundo cada vez mais digital.