Inovação em tempos de ruptura: o que conecta empresas que escalam e países que constroem soberania tecnológica
No Campinas Innovation Week 2026, tivemos a oportunidade de participar de duas conversas que partiram de perspectivas diferentes, mas acabaram convergindo em questões bastante semelhantes.
No painel “Empresas-filhas da Unicamp: um exemplo de impacto”, Rose Ramos, fundadora e CEO da Match IT, esteve ao lado de Cesar Gon, CEO da CI&T, e Davi Figueira Co-founder da Sim! Cerveja sem Álcool, discutindo empreendedorismo, transformação tecnológica e o papel do ecossistema da Unicamp na formação e no crescimento de empresas.
Mais tarde, Rose moderou o painel “Arquitetura da Soberania: Resolvendo os Nós Críticos da IA e Tecnologias de Fronteira”, com Paula Paro e Gustavo Wiederhecker, da Unicamp, colocando no centro da conversa uma pergunta cada vez mais estratégica: o que o Brasil precisa dominar, controlar ou desenvolver para não transformar dependência tecnológica em vulnerabilidade?
Das duas discussões emerge uma reflexão comum: em ambientes de transformação acelerada, a vantagem não está apenas na tecnologia que temos hoje, mas na capacidade que construímos para continuar aprendendo, fazendo escolhas e criando o próximo ciclo.
Quando a tecnologia muda rápido, o ativo deixa de ser apenas aquilo que foi construído
Para empresas que atuam diretamente com inteligência artificial, a velocidade da transformação tecnológica muda a própria lógica de construção de produto.
No painel sobre empresas-filhas da Unicamp, Rose compartilhou um aprendizado importante da trajetória da Match IT: em um ambiente no qual tecnologias, modelos e possibilidades evoluem continuamente, o principal ativo de uma empresa não pode ser apenas o código que existe naquele momento.
Produtos podem precisar ser refatorados. Soluções que pareciam adequadas há poucos meses podem deixar de fazer sentido. Decisões anteriores precisam ser revistas.
O ativo que permanece é o aprendizado acumulado: entender clientes, problemas, tecnologias, escolhas que funcionaram e — igualmente importante — aquelas que foram descartadas. A cada decisão de produto ou negócio existem inúmeras alternativas que não foram escolhidas, e esse repertório passa a fazer parte da capacidade da organização de decidir melhor no ciclo seguinte.
A experiência de Cesar Gon reforçou essa perspectiva a partir de uma trajetória empresarial de mais de três décadas. Internet, mobile, cloud e agora inteligência artificial criaram sucessivas ondas de transformação. Cada uma delas pode representar uma ameaça à posição conquistada ou uma oportunidade de atingir um novo patamar.
Para os líderes, isso traz uma consequência prática:
- preservar excessivamente aquilo que funcionou no passado pode se tornar um risco;
- aprender rapidamente passa a ser mais importante do que defender uma solução específica;
- planejamento continua necessário, mas precisa conviver com revisão e adaptação constantes;
- a execução se torna ainda mais importante quando o acesso às novas tecnologias se democratiza.
Com IA, o trabalho humano muda de lugar: de produzir volume para fazer escolhas
A inteligência artificial também está alterando a natureza do trabalho dentro das organizações.
Um exemplo compartilhado por Rose durante o painel surgiu de uma situação cotidiana: diante de um relatório extenso, acompanhado por muitos vídeos e páginas de análise, a pergunta deixou de ser “quanto conseguimos produzir?” para se tornar “quais são os três pontos que realmente precisamos melhorar?”.
Essa mudança parece simples, mas revela algo maior.
Se ferramentas conseguem produzir textos, análises, documentos e alternativas em uma escala muito superior à anterior, o valor humano passa progressivamente da produção para a seleção, interpretação e tomada de decisão.
Isso exige uma revisão da forma como organizações estruturam seus times.
O desafio deixa de ser simplesmente aumentar output. Torna-se necessário desenvolver pessoas capazes de:
- identificar o que é realmente relevante;
- conectar informações provenientes de diferentes áreas;
- exercer julgamento diante de múltiplas alternativas;
- incorporar contexto, responsabilidade e ética às decisões;
- transformar conhecimento disponível em ação.
A conversa avançou ainda para a formação das próximas gerações. Cesar Gon defendeu que o futuro provavelmente não será apenas dos especialistas tradicionais nem dos generalistas superficiais, mas de pessoas capazes de mergulhar profundamente em diferentes campos e depois conectá-los — uma formação mais próxima do polimatismo.
Em um mundo em que o acesso ao conhecimento é amplificado pela IA, a capacidade de fazer conexões originais entre diferentes conhecimentos tende a ganhar ainda mais valor.
Ecossistemas também são infraestrutura
Outro ponto forte do primeiro painel foi a importância das redes construídas ao redor dos empreendedores.
A história da Match IT ajuda a tornar essa ideia concreta.
Na trajetória compartilhada por Rose, diferentes elementos do ecossistema da Unicamp apareceram em momentos distintos: conexões que ajudaram na construção inicial da tecnologia, acesso a pesquisadores e advisors, redes de investimento, programas de fomento e relações que permitiram buscar novos caminhos quando o modelo original precisou evoluir.
Há também uma dimensão menos tangível, mas igualmente importante: pertencimento.
Empreender envolve períodos em que clientes são perdidos, hipóteses precisam ser abandonadas e o próprio projeto é colocado em dúvida. Estar cercado por pessoas que já atravessaram desafios semelhantes ajuda não apenas com conhecimento, mas também com referências concretas de que é possível seguir adiante.
Cesar Gon levou essa discussão a outro nível ao destacar a importância de um ecossistema que consiga fazer circular experiência, confiança e capital entre gerações de empresas.
A questão, nessa perspectiva, não é apenas criar mais startups. É acelerar a evolução das empresas que já surgem, permitindo que conhecimento, reputação, conexões e capital retornem ao próprio ambiente que ajudou a criá-las.
Ecossistemas maduros funcionam, portanto, como uma infraestrutura invisível para inovação.
Da empresa para o país: acessar tecnologia não significa dominá-la
No painel da tarde, a discussão mudou de escala.
Se para uma empresa é necessário decidir quais competências preservar e desenvolver diante da transformação tecnológica, para um país a pergunta é ainda mais crítica.
Hoje podemos acessar alguns dos modelos de inteligência artificial mais poderosos do mundo. Mas acesso não é necessariamente soberania.
Paula Paro destacou que depender exclusivamente de modelos desenvolvidos no exterior traz duas questões importantes.
A primeira é a adequação. Modelos treinados predominantemente em outras realidades podem não representar adequadamente características brasileiras em áreas como saúde, agricultura ou sociedade.
A segunda envolve os próprios dados. Dados produzidos no Brasil representam um ativo estratégico e podem possuir enorme valor justamente por refletirem características particulares da nossa população e do nosso território.
Isso não significa defender isolamento tecnológico.
Significa reconhecer que organizações e países precisam compreender quais dependências são aceitáveis e quais criam vulnerabilidades difíceis de reverter.
Essa distinção vale também para empresas. Usar tecnologias externas pode ser extremamente eficiente. O problema surge quando não existe capacidade de compreender, substituir ou negociar aquilo de que se depende.
Software sozinho não resolve: hardware, infraestrutura e talento continuam importando
A discussão sobre tecnologias quânticas trouxe para o centro da conversa uma camada que muitas vezes desaparece quando falamos de transformação digital: a infraestrutura física necessária para que a tecnologia exista.
Gustavo Wiederhecker lembrou que tecnologias quânticas envolvem muito mais do que computação quântica. Comunicação, sensores, fotônica e semicondutores fazem parte dessa cadeia.
E a mesma questão se aplica à inteligência artificial.
Software pode evoluir muito rapidamente, inclusive com o auxílio da própria IA. Mas desenvolver hardware, processos de fabricação, sensores e infraestrutura exige outras capacidades, investimentos e horizontes de tempo.
O Brasil já construiu capacidades importantes nessas áreas ao longo de sua história, inclusive em Campinas. Mas parte delas deixou de ser priorizada durante décadas.
Retomar protagonismo não significa necessariamente tentar fabricar imediatamente os componentes mais avançados do mundo. Uma possibilidade mais realista discutida no painel é criar infraestrutura de prototipagem e desenvolvimento, permitindo que universidades, pesquisadores e startups consigam experimentar, construir provas de conceito e desenvolver propriedade intelectual antes de recorrer a parceiros internacionais para produção em escala.
Essa infraestrutura também tem relação direta com outro problema: talentos.
Pesquisadores brasileiros altamente qualificados encontram oportunidades no exterior não apenas por remuneração, mas porque lá existem infraestrutura e ambientes onde conseguem desenvolver aquilo para o qual foram preparados.
Reter talentos, portanto, não é uma questão isolada de pessoas. Depende também de criar condições para que elas possam realizar trabalho de fronteira.
Soberania não é fazer tudo sozinho. É preservar capacidade de escolha
Talvez a principal síntese do segundo painel esteja exatamente na pergunta que orientou a moderação: o que precisamos dominar, o que precisamos controlar e onde podemos depender de parceiros sem transformar dependência em vulnerabilidade?
Nenhum país domina sozinho todas as camadas de inteligência artificial, semicondutores, energia, infraestrutura, comunicação e tecnologias quânticas.
Parcerias internacionais são inevitáveis e desejáveis. A questão é a qualidade dessas interdependências.
Gustavo destacou a necessidade de o Brasil utilizar melhor seus próprios ativos como parte dessas relações: dados, mercado, talentos, pesquisa científica e capacidades existentes podem funcionar também como instrumentos de negociação e construção de relações mais recíprocas.
Paula, por sua vez, apontou um exemplo concreto de iniciativa capaz de transformar capacidades existentes em infraestrutura pública: o INSPIRE, projeto voltado à aplicação responsável de inteligência artificial no serviço público, que envolve desafios como integração e interoperabilidade entre diferentes bases de dados governamentais, governança, ética e privacidade.
Na frente de tecnologias quânticas, Gustavo apontou como prioridade a criação de capacidade regional para prototipagem de chips e dispositivos e, no âmbito nacional, o avanço de uma iniciativa brasileira estruturada para o setor.
São caminhos diferentes, mas que partem do mesmo princípio: escolher algumas capacidades estratégicas e sustentá-las no tempo.
Conclusão: capacidade de aprender também é uma forma de soberania
Os dois painéis começaram em lugares bastante diferentes. Um discutia empreendedores, empresas e ecossistemas. O outro, inteligência artificial, hardware, dados, tecnologias quânticas e geopolítica. Mas ambos chegaram muito próximos de uma mesma conclusão.
Para uma empresa, a capacidade de sobreviver às próximas ondas tecnológicas depende menos de proteger aquilo que já construiu e mais de preservar seu conhecimento, sua rede, seus talentos e sua capacidade de aprender e decidir.
Para um país, a lógica é semelhante. Soberania não significa desenvolver absolutamente tudo internamente. Significa possuir conhecimento, infraestrutura, talentos e capacidade de articulação suficientes para fazer escolhas e, inclusive, sobre onde colaborar, onde depender e onde não podemos abrir mão de construir competência própria.
Talvez esse seja um dos grandes desafios da inovação neste momento: não tentar prever exatamente qual será a próxima tecnologia dominante, mas construir organizações e ecossistemas capazes de continuar relevantes quando ela chegar.
E, nesse sentido, Campinas oferece algo especialmente valioso: universidade, ciência, empreendedores, empresas, institutos de pesquisa e poder público próximos o suficiente para que essas conversas possam se transformar em projetos concretos.
Foi uma grande oportunidade participar dessas discussões no Campinas Innovation Week 2026: conectando empreendedorismo, tecnologia e algumas das escolhas que serão determinantes para o nosso próximo ciclo de inovação.